Correlação / Causalidade + RDD: Educação Impacta na Criminalidade?

Este post já está ficando cada vez mais batido aqui no blog, mas toda vez que eu encontro um bom exemplo, me sinto na obrigação de trazê-lo. Desta vez, a análise é sobre correlação e criminalidade. Afinal de contas, parece que alunos repetentes estão mais propensos ao crime. Ou seja, a repetência teria algum efeito sobre a criminalidade. Será?

A resposta parece óbvia, um SIM bem gigante, mas vamos parar para pensar. Por um lado, o aluno que repete é provavelmente o aluno que possui mais conflitos familiares, talvez problemas cognitivos, possuem renda menor, dentre várias outras coisas. Todos estes fatores podem ser a causa tanto da repetência quanto do ingresso ao mundo do crime. Sendo assim, o problema não seria a repetência em si, mas sim outros problemas, outras variáveis não observáveis ou não analisadas. Ou seja, a relação de causa entre repetência e crime não existiria.

Por outro lado, pode-se argumentar que ao repetir de ano, o aluno pode ficar desmotivado com o ambiente escolar, fazendo com que aos poucos ele se afaste da escola e se aproxime do crime. Ou então o atraso escolar poderia levá-lo à uma renda menor e maiores dificuldades para obter um bom emprego, o que culminaria com este aluno indo para o crime. Também é algo plausível, mas neste caso há uma relação de causa.

Novamente, por mais óbvia que pareça a relação de causalidade, não podemos assumir nada apenas levantando dados das duas variáveis e obtendo uma correlação. Sabendo disso, os Eren, Lovenheim e Mocan (2018) [1] tentaram estimar o impacto de repetência na propensão ao crime utilizando uma técnica chamada Desenho de Regressão Descontínua, do inglês Regression Discontinuity Design, popularmente conhecida como RDD ou RD.

Explicando de forma sucinta, RDD consiste em selecionar um corte e analisar os indivíduos em torno deste corte. Para o nosso caso, ao analisarmos os alunos que passam de ano em relação aos que repetem, estaremos analisando indivíduos muito distintos. Pense no aluno que tem nota 10 e no aluno nota 1. Ao observarmos que o aluno nota 10 não foi para o crime, mas o aluno nota 1 foi, não dá para inferir que a repetência foi a causa dos destinos diferentes. O aluno nota 10 pode ter outras características que o fizeram bem sucedido. Entretanto, ao confrontarmos o aluno nota 5,8 com o aluno de nota 6,2, estamos comparando alunos muito semelhantes, sendo que a repetência do primeiro foi menos demérito. O nível intelectual e todas as outras variáveis destes dois do último exemplo são praticamente iguais.

Utilizando o corte dos testes dos alunos, os três pesquisadores analisaram o impacto que a retenção causa na propensão ao crime. O resultado aponta para um aumento em 1.25pp para crimes em geral (10,85% em relação ao baseline), com impacto maior para crimes violentos – você pode ver os outros resultados no fim do post. Este estudo, além da utilidade no aprendizado em econometria, é útil para os que se interessam por educação, por isso resolvi comentar aqui. Espero que façam bom proveito dele.

Para os que estão com o inglês em dia, fica aqui um vídeo explicativo complementar:

Você também pode ouvir sobre RDD e outras metodologias em um Spin de Notícias que eu gravei há um tempo para o Portal Deviante, basta ir em Spin de Notícias 239 ou ouvir pelo Spotify (ou qualquer outro agregador de podcasts).

E se você gostou do post, não vá embora sem deixar uma curtida ou um comentário. Eu sei que não parece relevante, mas faz diferença para mim e custa pouco para você. Se encontrou algum erro ou tem alguma sugestão, dúvida, elogio ou crítica, pode escrever nos comentários ou me enviar uma mensagem diretamente em Sobre o Estatsite. E visite também a conta do Twitter @EstatSite.

Forte abraço e bons estudos!

[1] https://www.nber.org/papers/w25384

 

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