O Parque dos Ratos: O Vício Além dos Componentes Químicos

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Como não escrevo mais para nenhum outro site, este texto teve que ser publicado aqui mesmo. Sei que não tem a ver com o EstatSite, mas é o jeito.

Drogas viciam, todo mundo sabe disso. O motivo parece óbvio, há alguns componentes químicos que agem sobre seu cérebro de forma a criar uma dependência. É assim com álcool, nicotina, maconha, cocaína e muitas outras substâncias conhecidas. Ao menos, é assim que o senso comum costuma tratar o vício. O que poucos sabem é que no caso das drogas, assim como em muitos outros temas, o senso comum não segue à risca o que a ciência diz. Há muito tempo, ainda que isso não seja muito falado, descobriu-se que o vício possui outras origens que vão além da química e elas estariam no ambiente em que o indivíduo faz parte.

Um curioso experimento com ratos ajudou a desvendar um lado menos conhecido da adicção às drogas. Ainda em 1978, os pesquisadores Bruce K. Alexander, Robert B. Coambs e Patricia F. Hadaway [1] conduziram uma série de experiências que ficou conhecida como “Parque dos Ratos”. Os pesquisadores compararam como os ratos respondiam ao vício em dois momentos. No primeiro, colocava-se o rato isolado em uma gaiola com dois bebedouros, um deles contendo apenas água e outro com água misturada com morfina. Em outro momento, colocava-se um rato em um ambiente com outros ratos, fêmeas e outros brinquedos, ou seja, em um convívio com outros ratos em que fosse possível realizar diversas atividades criativas. Nesta situação, o rato também possuía as duas opções de bebidas, água com ou sem morfina. Os pesquisadores então observaram que os ratos não isolados consumiam uma quantidade significativamente menor da água com morfina. Em determinadas situações, os ratos do “Parque dos Ratos” bebiam até 20 vezes menos a bebida com morfina, em comparação com os ratos isolados.

Os ratos, assim como os seres humanos, são criaturas que se estressam com o isolamento e possuem diversas necessidades como exercícios, sexo e outros entretenimentos. Por este motivo, a situação de isolamento fazia com que o rato tivesse maior propensão ao vício na morfina. Imagine que você seja colocado num cativeiro, isolado de todas as outras pessoas e somente com uma televisão em que passasse um único filme. Era de se esperar que você fosse assistir este filme inúmeras vezes, já que é a única opção de entretenimento que você possui. Este foi o motivo que fez os pesquisadores compreenderem que o ambiente no qual o indivíduo pertence tem grande influência na propensão ao vício. Sendo assim, é fácil entender porque pessoas em situações mais vulneráveis são as que mais sofrem com o vício em alguma droga.

Adicionalmente, outras situações podem servir para embasar o argumento dos três pesquisadores. Em vários países, a diamorfina é utilizada para analgesia. Pessoas sofrem acidentes diariamente e acabam tomando a medicação nos hostpitais. Porém, quando deixam o local, não se tornam viciadas na droga, que também atende pelo nome de heroína. Além disso, podemos citar também os adesivos de nicotina, que deveriam resolver a necessidade pelo composto químico e assim livrar as pessoas do vício. Porém, hoje sabemos que eles têm uma taxa baixa de recuperação de dependentes. Por fim, note a quantidade de pessoas que retomam o vício anos depois de se livrarem da substância, quando a parte química já está superada.

O estudo do Parque dos Ratos e os exemplos citados demonstram que o vício vai além da necessidades físicas causadas pelos compostos químicos de cada droga. Ainda que não seja um estudo amplamente conhecido pelo cidadão médio, ele já foi replicado [2] e diversos livros sobre drogas costumam mencioná-lo [3] [4]. Além de entender mais sobre a dependência, a conclusão do estudo deixa claro que precisamos cuidar de indivíduos em situações vulneráveis. Em outras palavras, se o combate às drogas continuar focando na punição e isolamento do dependente, como vem sendo feito há décadas, podemos esperar mais um longo período de políticas fracassadas e indivíduos deixados à margem da sociedade.

[1]

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/98787

[2]

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19741591

[3]

HARI, Johann. Na fissura: Uma história do fracasso no combate às drogas

[4]

HART, Carl. Um preço muito alto: A jornada de um neurocientista que desafia nossa visão sobre as drogas

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